Na segunda metade do século XIX, um país promissor que esbanjava prosperidade. Não por menos, aliás, era conhecido pela alcunha de “celeiro do mundo”. Assim foi a Argentina por mais de cem anos, período no qual deu vazão a uma ampla efervescência econômica, social e política. Os índices que sustentavam esse desenvolvimento, contudo, perderam-se ao longo do tempo. E o que vemos hoje é uma nação imersa num ciclo infindável onde as únicas constantes são o caos e a instabilidade.
A tentativa de demissão da maior autoridade do Banco Central, através de decreto presidencial, é mais um sintoma de uma crise que se alastra no país vizinho. A gravidade desse último problema reside, basicamente, em três pontos centrais: 1] o flagrante desrespeito à autonomia da presidência da instituição financeira; 2] a queda-de-braço insurgida entre os Três Poderes devido à permanência do presidente; 3] a motivação equivocada da exoneração, fruto da intenção de utilizar reservas – criadas com objetivo de proteger o país de crises – para custear as dívidas do governo.
E, como era de se esperar, a comunidade internacional reagiu em uníssono. Foi disseminado o temor nos mercados e a credibilidade da Argentina – que já estava em baixa – saiu ainda mais debilitada. Em suma, foi a resposta a uma série de ações que têm se tornado cada vez mais frequentes nos últimos anos. Integra esse rol de práticas no mínimo discutíveis a intimidação levada a cabo contra veículos de comunicação – como o Clarín e o La Nación – através do uso indevido de agentes fiscais e da manipulação de grupos sindicais.
A forma heterodoxa através da qual tem sido conduzida a economia argentina intraquiliza o mercado interno e assusta investidores externos. Lançando mão de uma atitude constitucionalmente questionável, contratos estão sendo rompidos unilateralmente e grupos estrangeiros foram expulsos – vide o francês Suez e o italiano Banca Nazionale del Lavoro. A inflação do país é atualmente a terceira mais alta do mundo. Contudo, ao invés de ser combatida com seriedade e responsabilidade, o governo prefere manipular o índice oficial.
Contrariando a lógica da economia global, a exportação é desestimulada através da imposição de taxas e confiscos cambiais – tal como ocorreu com os produtores de grãos –, na premissa de abastecer o mercado interno. Somam-se a essas medidas a ameaça do governo em não honrar dívidas com credores, o congelamento de preços e a hostilidade ao mercado financeiro.
Esse conjunto de políticas públicas, por óbvio, não poderia ter desfecho diferente. A história testemunha que esse caminho não dá certo. As atuais circunstâncias decorrem de uma série de escolhas, e os fatos não abrigam teses vitimizadoras. Basta ver que o Brasil, outrora em pior situação, optou pelo caminho inverso: pouco a pouco foi adquirindo confiança da comunidade internacional com demonstrações inequívocas de maturidade política e econômica. O contraste não poderia ser mais claro. Enquanto nosso País ascende à condição de protagonista e potência, a Argentina constrói uma escalada em direção ao retrocesso.
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por Germano Rigotto: